Reativar o animismo

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Em “Reativar o animismo”, Isabelle Stengers pensa o gesto científico quando ele é arrastado para uma das suas periferias ou limites – a questão não é exclusivamente “o que pensa a ciência sobre o animismo”, mas o que o animismo faz com a investigação científica? Trata-se de repensar a própria ciência, como se o olho de um animal estivesse a acompanhar o seu método, pronto a atacá-la.

“Essa palavra, “reativar” [to reclaim], chegou até mim como presente de bruxas neopagãs contemporâneas e outros ativistas dos Estados Unidos. Também chegou até mim o impactante clamor da neopagã Starhawk: “A fumaça das bruxas queimadas ainda paira nas nossas narinas”. Os caçadores de bruxas certamente não estão mais entre nós, e não levamos mais a sério a acusação de adoração do diabo outrora atribuída às bruxas. Pelo contrário, nosso meio é definido pelo orgulho moderno da capacidade de interpretar tanto a bruxaria como a caça às bruxas em termos de construções, crenças sociais, linguísticas, culturais ou políticas. O que esse orgulho deixa passar despercebido, no entanto, é que somos herdeiros de uma operação de erradicação cultural e social – precursora do que foi cometido em nome da civilização e da razão. Qualquer coisa que classifique a memória de tais operações como sem importância ou irrelevante só contribui para torná-las mais bem-sucedidas.

Nesse sentido, o orgulho que sentimos de nosso poder crítico de “saber mais” do que as bruxas e os caçadores de bruxas nos torna herdeiros da caça às bruxas. A questão aqui, obviamente, não é nos sentirmos culpados, mas nos abrirmos para o que William James, em seu “A vontade de acreditar” (The Will to Believe), chamou de opção genuína e eficaz, complicando a questão do “nós”, exigindo que nos situemos. E aqui entra a verdadeira eficácia do grito de Starhawk. Reativar o passado não é uma questão de ressuscitá-lo como ele era, de sonhar em tornar realidade uma dada tradição “verdadeira”, “autêntica”. Trata-se antes de reativá-lo e, em primeiro lugar, de sentir a fumaça que paira nas nossas narinas […].”