Descrição
Neste ensaio de 1931, Gabriela Mistral parte da aposta de que, sem muita demora, nos ocorrerá criar mapas audíveis de um país, isto é, “o mapa das ressonâncias que tornasse uma terra ‘escutável'”. Da aposta ao salto, o seu ensaio torna-se um experimento de escrita deste mapa – escrever torna-se deslizar a orelha da costa chilena ao seu interior, da região norte à Patagônia, e capturar os sons variados, por vezes comprimidos, que ressoam pelas paisagens. Para isso, é preciso afinar a orelha enquanto se aponta o lápis, quer dizer, ter a orelha de um veado: “não apenas aberta, mas também estendida em tubo captador.” É a escuta e a escrita como métodos cartográficos.
“Agora já terminamos a viagem. A Patagônia está muito distante; mas a reteremos contra a geografia e o destino – e devemos mencioná-la.
Neste imenso planalto austral, ouve-se – quando se ouve alguma coisa – uma marca selvagem que investe contra os canais e forceja em meio ao grande estreito. Rumo ao interior, mal povoado, há uns silêncios de ervas imensas, de espessos e adormecidos herbais, que se parecem com o estupor provocado pelos icebergs no último mar. De quando em quando, gritos, alçados e logo derrubados, de pastores que tangem o gado, com duas ou três notas quebradas e ascendentes.”




