Descrição
“No Chile o som se circunscreve.” – assim termina este ensaio sobre a cartografia do som, que é também um ensaio sobre modos de habitar distantes da imagem e que tocam os ouvidos, e também um ensaio sobre a escuta como forma de grafar. A partir de outros poetas e ensaístas, Diego Alfaro Palma escreve sobre a nossa relação com o som e o que nela tem de inescapável – e portanto material –, sem que isso reduza as forças do imaginário e do desconhecido que a acompanham.
“Sem dúvida, Raúl Marín é um lugar para se escapar da civilização; aí, uma pessoa pode ficar frente a frente com seus demônios. E aí, também, se alguém começa a avançar sobre a areia até a zona oeste, começa a ver esplanadas de morangos silvestres em meio às dunas; diferentes tipos de pássaros e abelhas pululam no festim. Chegando à foz do rio Palena, encontra-se uma enorme praia, completamente deserta, onde se abre um cemitério de Fitzroyas, e distintos tipos de madeiras produzem uma música particular quando se chocam contra as ondas. Às vezes, caso se tenha sorte, é possível chegar a avistar um grupo de toninhas saltando pela margem, a um punhado de metros de onde a água chega até os pés. Esta sucessão ininterrupta de saltos dentro do mar, juntamente às claves das madeiras e ao esvoaçar das abelhas, geram um fragmento que dificilmente pode ser encontrado em uma planície ordinária, em que a percepção não condensa, mas sim se expande, dispersando os sons.”




