n.188 | Minha vulnerabilidade é meu poder

Ocean Vuong

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Descrição

Este ensaio foi feito a partir da transcrição e tradução de uma entrevista dada em 2022 por Ocean Vuong , durante a qual o seu  pensamento e a sua imaginação dedicam-se à escrita, ao ensino, ao cuidado, à partilha. Enquanto escutamos ou lemos, torna-se sensível a simultaneidade entre liberdade e precisão, entre a fragilidade e a força para tocar (e fazer ruir) categorias estanques. A radicalidade da delicadeza, a profundidade suave, a transformação terna – talvez o que se aprenda com essas páginas é também que repetidas vezes a simultaneidade e a diferença são modos da exatidão.

“O trabalho da pessoa escritora não se refere tanto a definir algo, mas a abrir espaço para o empenho da curiosidade, alargar o teatro do maravilhamento, e isso para mim é algo bastante queer. Mas não é algo somente disponível para as pessoas queer, a heteronormatividade pode ser abandonada se você tiver coragem de fazer isso. A verticalidade do valor que damos à arte: isso é linguagem elevada, isso é arte elevada, isso é arte menor; erudito, popular.

Existe essa verticalidade bíblica, ou talvez cristã, de que tudo o que for elevado é melhor do que o que está abaixo. E acho que existe um grande mito e uma grande fraudulência nesse pensamento. Eu sempre fui muito descrente disso, por causa das pessoas que me criaram. Elas eram refugiadas, da classe trabalhadora, e eu não as via como inferiores. Elas enxergavam a si mesmas como inferiores na sociedade porque faziam trabalhos manuais. Minha mãe e minha família eram muito intimidadas pela riqueza e pelo poder, como muitos são, mas para mim elas eram minhas heroínas, eram adultas.

Eu achava que elas podiam fazer qualquer coisa porque eu as via trabalhando, em especial no salão de beleza, elas são professoras da beleza, proprietárias da beleza. Que poderoso ter a beleza nas mãos a ponto de conseguir deixar alguém mais bonito ao cuidar de maneira apropriada da pele, mãos, pés – a parte mais baixa do corpo. Cuidar da parte mais baixa do corpo é elevar alguém a auto dignidade. Essa perspectiva instalou em mim um ceticismo perene em relação ao que é chamado de arte elevada, arte menor.”

 

 

Edição
Maria Carolina Fenati

Tradução
Julia Raiz

Revisão da tradução
Cecília Rocha

Preparação de texto
Maria Carolina Fenati

Revisão
Andrea Stahel

Projeto gráfico
Luísa Rabello

Coordenação da coleção
Luísa Rabello e Maria Carolina Fenati

Belo Horizonte, 10 de março de 2026.