Description
Este é um ensaio sobre o ritmo – sobre desejá-lo, sobre escutá-lo. O ritmo está nas esferas celestes e no crescimento da grama, nos versos de um poeta e nas pernadas de um corredor. Talvez o ritmo seja o menor denominador comum de todas as coisas, ou talvez o ritmo é o inescapável. Na variação das formas de vida, o ritmo espalha-se, e não há memória que não o convoque – desde quando ainda não éramos nada, ouvia-se o coração (se não o nosso, o coração ao nosso redor). Este é um ensaio sobre o ritmo, e também sobre a escuta, a escrita e a dança, que são formas de a ele responder.
“Por isso saio para correr um pouco todas as manhãs, para me lembrar de que a inalação e a exalação também podem ser a construção ativa de um ritmo. Não me esquecer de mim mesmo em um trote complacente, e sim empurrar, forçar um pouco a máquina, estabelecer uma pauta para a vontade. Tal base rítmica, no ato de correr, contagia o fluxo do pensamento e de repente sou um beat, um tempo em que confluem pernadas, ideias e batimentos. “Ouves o diapasão do coração?”, pergunta a si mesmo López Velardes, com uma rima interna que bate como um tambor. Há milhares de exemplos: a mim me basta saber que, afinando o ouvido de ser (se me permitem a expressão), em tudo há uma sístole e em tudo há uma diástole, isto é, em tudo há coração.”