Caderno n.65 – Os Involuntários da Pátria

Eduardo Viveiros de Castro

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Descrição

Neste texto, Eduardo Viveiros de Castro mostra as operações que buscam naturalizar, efetivar e ocultar a aniquilação da existência indígena perpetrada há séculos: a doutrinas nacionalistas da mestiçagem, as políticas públicas, o Estado hegemônico e homogeneizante, a separação da terra, o não-direito de ser o que é. E se os índios não estão sós (a política de exclusão dos índios é próxima à de outras minorias no Brasil), é também na medida em que eles se tornam exemplos: exemplos do que é sistematicamente aniquilado e exemplos de resistência (rexistência) secular.

“O Estado brasileiro e seus ideólogos sempre apostaram que os índios iriam desaparecer, e quanto mais rapidamente melhor; fizeram o possível e o impossível, o inominável e o abominável para tanto. Não que fosse preciso sempre exterminá-los fisicamente para isso — como sabemos, porém, o recurso ao genocídio continua amplamente em vigor no Brasil —, mas era sim preciso de qualquer jeito desindianizá-los, transformá-los em “trabalhadores nacionais”. Cristianizá-los, “vesti-los” (como se alguém jamais tenha visto índios nus, a esses mestres do adorno, da plumária, da pintura corporal), proibir-lhes as línguas que falam ou falavam, os costumes que os definiam para si mesmos, submetê-los a um regime de trabalho, polícia e administração. Mas, acima de tudo, cortar a relação deles com a terra. Separar os índios (e todos os demais indígenas) de sua relação orgânica, política, social, vital com a terra e com suas comunidades que vivem da terra — essa separação sempre foi vista como condição necessária para transformar o índio em cidadão. Em cidadão pobre, naturalmente. Porque sem pobres não há capitalismo, o capitalismo precisa de pobres, como precisou e ainda precisa de escravos. A acumulação dita “primitiva” não é um episódio das longínquas origens brutais do capitalismo, mas sua condição imanente: o capitalismo só cresce pelas pontas aprofundando ao mesmo tempo suas raízes sinistras nas minas de coltan do Congo, nas sweat-shops de São Paulo ou Mumbai, e nos 150 milhões de migrantes internos na China em regime de trabalho semi-escravo. Enfim, e sobretudo, ele prospera por via da exploração da Terra, a natureza “grátis” oferecida por Deus para o uso e abuso do “Homem”, isto é, por via da devastação generalizada do planeta.”

Informação adicional

Ano

2017

Projeto gráfico
Mateus Acioli

Este Caderno de Leituras foi realizado com recursos
da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte.
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