Sobre a morte de um amigo

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Nesta carta, assinada em 19 de agosto de 1563, Montaigne descreve os últimos momentos da vida de seu amigo La Boétie. Comovente e encantatória, a carta é um testemunho impossível: entre a saúde e a doença, um silêncio se anuncia, implacável, e Montaigne, que o via chegar, não pôde dar-lhe um lugar.

“Nesse ponto, ele terminou sua fala, continuando-a depois com uma tal firmeza no semblante, tal força nas palavras e na voz que, daquele momento em que o encontrara, quando entrei em seu quarto, fraco, arrastando lentamente as palavras, umas após outras, e tendo o pulso enfraquecido como que por uma febre vagarosa puxando-o para a morte, o rosto pálido e totalmente mortificado, parecera então que ele acabara, como por milagre, de retomar um pouco de vigor, a tez mais corada, e o pulso mais forte, de modo que fiz com que ele apalpasse o meu para compará-los conjuntamente. Naquela hora tive o coração tão apertado que nada lhe soube responder. Mas duas ou três horas após, tanto para que ele continuasse com essa grande coragem, como porque eu desejasse, pelo zelo que tive toda minha vida por sua glória e sua honra, que ele tivesse mais testemunhas de tantas e tão belas provas de magnanimidade, dispondo de mais companhia em seu quarto, eu lhe disse que ficara vermelho de vergonha de ter-me faltado a coragem de ouvir aquilo que ele, que estava às voltas com este mal, tivera a coragem de me dizer. Que até então pensara que Deus não nos havia dado uma tão grande vantagem sobre os acidentes humanos, e acreditara com dificuldade no que lia às vezes nas histórias; mas que, tendo observado uma tal demonstração, louvaria a Deus pelo fato de que isso tenha se passado com uma pessoa de quem fui tão amado e que amei tão afetuosamente, e que isso me serviria de exemplo, para desempenhar este mesmo papel por minha vez. Ele me interrompeu para me pedir que assim eu fizesse e mostrasse com efeito que as conversas que tivéramos durante nossa saúde, não as traríamos somente em nossas bocas, mas gravadas bem antes no coração e na alma, para colocá-las em execução nas primeiras ocasiões que se oferecessem, acrescentando que essa era a verdadeira prática de nossos estudos e da filosofia.”