Slides e cabelo cor de prata

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Neste exercício rememorativo, Maria Filomena Molder conta o que lhe aconteceu quando, em 1965 ou 1966, foi ao Teatro Tivoli, em Lisboa, assistir ao espetáculo de Merce Cunningham e companhia. Suas palavras têm o poder de tornar visível o que ela experimentou: a rapariga que tinha queda pela estranheza e os bailarinos que deixavam-se cair; o piano a soar para fora do teclado e dos pedais; o fosso do teatro e a projeção ao acaso das imagens. Em tudo o que conta, escuta-se o testemunho de alguém muito viva a arriscar-se no exercício de tornar-se o que ainda não poderia saber.

 

“Era uma época em que o Liceu Rainha D. Amélia (nome que substituíra o primeiro, Rainha D. Leonor,  dois ou três anos depois de eu ter lá entrado) recebia da parte de certos Teatros, do Tivoli tenho a certeza, bilhetes para concertos, dança e teatro, distribuídos depois por quem os solicitava. Era o meu caso.

E também no que me dizia respeito era uma época.  Passo a explicar-me: a  minha vida assentava na convicção de que só me dizia respeito aquilo que não compreendesse, aquilo em que ainda não tivesse metido o dente, numa mistura de atracção-repulsa com vontade de contrariar o que me tinham ensinado, o que eu já sabia.”