Pão e poesia

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Neste texto, Isroel Shtern escreve e nos atinge nas entranhas, onde convivem a fome e a poesia.

“Um poema famoso, que eu não gosto, um poema muito popular e que não é muito auspicioso… Um poema que é citado a cada pogrom, a cada tragédia, e que é tão bonito e refinado como só o sofrimento judaico consegue ser.
‘Dê aos mortos as mortalhas
Dê aos vivos o pão’
Você conhece esses versos? À primeira vista tudo bem, é simples e generoso. Mas experimente uma análise mais detalhada.
Quando de um só fôlego dizemos: ‘Dê aos mortos as mortalhas, dê aos vivos o pão’, os vivos também são uma espécie de mortos, mas mortos que precisam comer.
E qual cadáver terá o atrevimento de dar um tapa na mesa: “Nos dêem as mortalhas!” – seria uma algazarra geral: “Volta pro teu descanso!…”
Também aquele que vive precisa ficar deitado ou sentado como morto, até que alguém, de bom grado, lhe corte um pedaço de pão, do mesmo modo como se corta um pedaço de algodão para o morto.
E não é só isso.

[…]

Não frite uma costeleta feita duma mistura de pão e mortalhas. Não pense que
um homem pobre é um defunto que mastiga e engole.”