A realidade no paredão

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Neste texto, Sérgio Martins investiga as relações entre a violência sexual, a fantasia social e a irrupção irremediável do real, tudo isto através de um episódio televisionado ao vivo e sem cortes no Big Brother Brasil de 2012. Se este texto diagnostica algo de trágico (e há sinais de que esta tragédia é duradoura), é para buscar dissecar as operações desta tragicidade, escapar aos lugares fixos que ela produz, e assim a ela resistir, ou sobreviver.

 

“A regulação do gozo pela fantasia é nada menos que o sustentáculo do laço social, o que significa dizer que, para a psicanálise, toda normalidade cotidiana é como que a ponta de um iceberg cuja base é uma economia libidinal que necessariamente gira em torno de faltas e compensações, sem jamais resultar em soma zero. Mas para que a fantasia cumpra tal função – para que se mantenha o semblante de uma normalidade estável – é preciso que ela permaneça implícita. É isso que explica, segundo o filósofo Slavoj Žižek, a tenacidade ideológica de certos discursos fóbicos e persecutórios2. A exclusão de um dado grupo ou indivíduo seria motivada não por qualquer característica intrínseca sua, mas por seu potencial de expor como tal a fantasia erigida em torno de um gozo que ela própria vela e regula. Segundo Žižek, por exemplo, o veto à admissão de gays no exército americano não se explica por simples preconceito ou desacordo com valores patriarcais e machistas, mas porque sua mera presença evidenciaria o teor homoerótico latente nos diversos rituais de camaradagem, trotes e iniciações que proliferam tropa afora.”